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Foto: Frederico Falcão Salles

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Frei Kempf: a capital da mirmecologia é o Brasil 



Kempf nasceu na Alemanha e mudou-se para o Brasil na adolescência; por 30 anos, dividiu sua rotina de trabalho entre as obrigações da Igreja e a mirmecologia

Ao longo da década de 1940, nos intervalos entre as diversas atividades religiosas dos Franciscanos no Brasil, se desenvolvia uma negociação de grande impacto para a entomologia brasileira. Frei Thomas Borgmeier, já envolvido pelos encantos dos insetos, tentava convencer o jovem Frei Walter Wolfgang Franz Kempf, promissor nos campos da ciência, a deixar a antropologia de lado e voltar seu olhar para as formigas. Borgmeier já havia contribuído substancialmente para a mirmecologia brasileira, mas estava interessado em outros grupos e queria encontrar um sucessor que assumisse sua coleção e seguisse adiante. Não se sabe ao certo qual foi o argumento determinante para o final feliz, mas o fato é que funcionou.


Apesar do interesse declarado e dos trabalhos já publicados sobre grupos indígenas da América do Sul, em 1947 Frei Kempf se matriculou na Siena College, nos EUA, para estudar biologia, química e física, graduando-se em Ciências Naturais. Pouco tempo depois, ele conquistou o doutorado, na Cornell University, com uma tese sobre a taxonomia das formigas Cephalotini (atualmente incluídas na tribo Attini). Era o começo de uma longa lista de contribuições, que o tornaram uma das principais referências do estudos de formigas no Brasil. A esta altura, ele tinha também assumido a coleção doada por Borgmeier, e já trabalhava incansavelmente para honrá-la e expandi-la.


"Dizem que a capital da mirmecologia do mundo é o Brasil, e acho que grande parte disso se deve ao seu legado, que contribuiu muito para abrir o caminho para as gerações seguintes. Kempf tinha trabalhos muito importantes, bem escritos, com  muita precisão. E, além de ser ótimo coletor, ótimo pesquisador, ele também reconhecia e honrava o legado dos outros cientistas", destaca Lívia Pires do Prado, hoje pós-doc do Museum of Biological Biodiversity, na Ohio State University. Lívia conheceu a fundo o trabalho de Kempf quando, por quase 10 anos anos, desenvolveu trabalhos no Museu de Zoologia da USP (em sua graduação, mestrado e pós-doutorado), onde está hoje a coleção e a biblioteca do pesquisador. "Essa é hoje uma das maiores coleções de formigas do mundo, principalmente em função do trabalho desses dois pesquisadores. O Kempf continuou a coleção de forma impecável. Quando eu vi aquilo, fiquei muito impressionada. Achava o máximo, inclusive a biblioteca, que também era deles e, depois, foi continuada pelo professor Brandão (Carlos Roberto Ferreira Brandão)."



Inicialmente interessado em antropologia, Kempf foi estudar insetos por influência de seu tutor, Frei Borgmeier

Studia Entomologica 

Entre as jóias que se destacam na biblioteca de Kempf estão as edições da Revista Studia Entomologica, considerada na época uma das maiores revistas de entomologia do mundo. Com grande impacto na comunidade científica, o periódico era cuidadosamente preparado por Kempf e Borgmeier, em meio às obrigações religiosas, e registrava  inclusive as descobertas dos próprios editores. Em quase 30 anos de trabalho dedicados à mirmecologia, Kempf descreveu cerca de 200 táxons de formigas e publicou mais de cem artigos de taxonomia, diversidade, história natural e assuntos afins. Durante muitas décadas, o catálogo das formigas da região Neotropical de Kempf foi a base da maior parte dos artigos sobre a taxonomia de formigas publicados na América. 


Apenas nos últimos anos de sua vida é que Kempf se tornou professor de entomologia (na Universidade Federal de Brasília/UNB), embora a prática de dividir conhecimento o tenha acompanhado desde os primeiros anos em ambas as carreiras, religiosa e científica. "Tenho conhecimento de apenas um pesquisador que foi orientado por ele, o Dr. Jorge Diniz (professor aposentado da Universidade Federal de Goiás). Mas ele ensinava a muitos, de modo informal. Sugeria onde as pessoas deveriam coletar, por conta do seu conhecimento a respeito das lacunas de amostragem para formigas. Sempre que um pesquisador estava interessado em ir a campo, ele sugeria projetos baseado nos mapeamentos que havia feito", conta Lívia.


O legado deixado pelo pesquisador, portanto, vai além do grande volume de trabalhos e da coleção de encher os olhos. "É difícil dizer qual a contribuição mais importante, acho que é a soma das coisas. A contribuição taxonômica, como as revisões taxonômicas que ele publicou, as chaves de identificação eram muito bem feitas, o que possibilitou que outras pessoas continuassem identificando mais e mais. Ao mesmo tempo, ele era muito completo, tinha contatos e parcerias importantes, era politicamente influente, com uma capacidade de trabalho imensa, o que atraiu muito interesse do mundo para a mirmecologia do Brasil."


Ciência e religião

Todos os anos de dedicação a ciência foram divididos com os trabalhos na Igreja, numa rotina organizada para dar conta das duas frentes. "É muito curioso porque os cientistas diziam que ele era um dos maiores entomólogos do Brasil e também padre, enquanto os religiosos diziam que ele era muito importante e influente na Igreja e também pesquisador." Nas muitas vezes em que precisava viajar para realizar atividades da congregação, o pesquisador aproveitava o tempo livre e as pausas durante a viagem para coletar e enriquecer sua visão sobre a fauna de formigas. "Não temos muitas informações pessoais. Nos registros escritos, cartas, textos, é tudo muito formal, muito direto. Mas as pessoas que o conheceram, o descrevem como um cientista bem-humorado, engraçado, muito responsável, organizado, ético, e muito didático."


Morte precoce

Kempf, que é nascido na Alemanha (e veio com a família para o Paranál aos 15 anos), morreu em um convento Franciscano, em Washington (EUA), enquanto se preparava para representar o Brasil no Congresso Internacional de Entomologia, em 1976. Ele tinha 56 anos, e se apresentaria ali um compilado do trabalho que desenvolveu por quase três décadas. "Mesmo tendo falecido precocemente, seu trabalho continua expressivo até hoje. Em nossos bancos de dados, por exemplo, suas contribuições lideram quando avaliado em termos de número de exemplares de formigas identificados, estudados ou coletados. Esses dados hoje em dia são fundamentais para entendermos mais sobre as lacunas de conhecimento ou conservação das espécies e dos ecossistemas", garante Lívia. 


Sua coleção ficou por algum tempo guardada na UNB. Em 1977, o Museu de Zoologia, por iniciativa de Nelson Papavero e suporte do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo reuniu os recursos necessários para comprá-la, incluindo ainda todo o material de pesquisa de Kempf: material óptico, biblioteca e documentação. Estima-se que ela tenha sido adquirida com algo em torno de 300 mil exemplares, e muitos outros itens foram acrescentados depois disso. A curadoria da coleção ficou por conta do professor Carlos Roberto Brandão e, mais recentemente, da professora Gabriela Camacho.


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